O Eco das Sombras
14.10.2023 - 28.10.2023
Duo - Aline Setton e Ivan Padovani
Canteiro - Campo de Produção em Arte Contemporânea - São Paulo, Brasil
O tempo é a água invisível que nos envolve quando não estamos mais dentro d’água. Leda Cartum
Os povos originários se orientavam pela luz, através da passagem do tempo que se dava pela incidência da luz, onde escurecer, amanhecer e anoitecer são verbos do tempo. Com a criação do relógio, o tempo teve um novo modo de marcação, se tornando até um instrumento de controle de corpos, o que gerou a perda de proximidade com a natureza e seu processo mais cíclico que possui outras formas de orientação.
Na relação entre arte e arquitetura por um viés da poesia: a luz é uma dimensão do tempo. E pensar nas possibilidades de construções, elaborações poéticas e visuais entre esses dois campos é investigar as camadas de construção do habitar. Camadas que não são só constituídas pelo espaço físico, concreto dos materiais que dão utilidade e beleza à construção, mas são também práticas de apropriações de camadas que modificam os modos de uso do espaço fazendo-o aproximar ao campo da abstração. São processos importantes para uma experiência mais fenomenológica dos espaços, que juntos podem contribuir para outras relações, aquelas mais próximas ao universo da fabulação.
Um desses elementos que dão uma sublimação ao espaço e marcam o tempo pela incidência e pela sua falta é a luz. Ao mesmo tempo, em que ela ilumina algo, ela sempre deixa outro na sombra, no escuro. E são para esses escuros que somos convidados a olhar, entendendo-os como possibilidade de leituras dentro do contemporâneo, conforme aponta Agamben: perceber o contemporâneo é perceber os escuros que o compõem, é “perceber no escuro do presente essa luz que procura nos alcançar e não pode fazê-lo.”2 Dessa maneira, Agamben coloca que conforme os neurofisiologistas é na ausência de luz, que uma série de células periféricas da retina são ativadas, as off-cells e é através dessa atividade que nossa visão produz o escuro. Portanto, como conclui Guilherme Wisnik, “estendendo essa imagem para a percepção daquilo que há de escuro na contemporaneidade, podemos entendê-la, então, não como uma forma de inércia ou de passividade, mas como uma particular habilidade”3.
Partindo dessas investigações das possibilidades de relação entre arte e arquitetura em um processo de construção de um trabalho site-specific, Aline e Ivan exploram as relações entre luz, espaço e arquitetura. Lembrando que a luz é responsável pela formação das imagens em nosso sistema ocular e também é a matéria utilizada nos equipamentos de projeção de imagem, ao mesmo tempo, em que ela possibilita a imagem, ela também constrói a imagem.
São os mecanismos da imagem, do espaço e do tempo que proporcionam uma imagem corporificada, experiência vivida e especializada, estabelecendo um caráter multissensorial, “Imagens poéticas simultaneamente evocam uma realidade imaginativa e se tornam parte de nossa experiência existencial e noção de identidade pessoal.”4
Entender o espaço como matéria e suporte é trazer o conceito de Instauração utilizado por Tunga ao pensar seus trabalhos. Por meio de um caráter que vai além de uma dimensão instalativa passando para uma prática que quer instaurar o lugar. Desse modo, ativando suas camadas abstratas e rompendo com uma suposta hegemonia do olhar dentro do campo da percepção. Nesse jogo, ao estabelecer relações entre corpo e tempo, os artistas redimensionam a experiência espacial, tornando-a mais ativa nessa arquitetura. Questões fundamentais para entrar na pesquisa e no processo elaborado em O eco das sombras.
Pensar nos corpos que esses trabalhos constroem no espaço, partindo da claraboia, um corte geométrico na cobertura para entrada de luz natural. Uma coluna de ar, de luz, que de forma metafórica sustenta o que não é sustentável. A fresta de luz, a imagem duplicada e a luz artificial que é rebaixada próxima ao chão, iluminando ornamentos, que são muito comuns na serralheria e a dimensão sonora proposta por Yoichi Kamimura. São trabalhos que exploram outras camadas do espaço e incorporam a luz como um elemento que constitui e envolve a arquitetura e o tempo, capaz de criar leituras, aproximando a modos mais instaurativos e específicos do espaço.
Omar Porto
1 CARTUM, Leda. As horas do dia: pequeno dicionário calendário. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2012, p.48.
2 AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo? E outros ensaios, trad. Vinícius Nicastro Honesko. Chapecó: Argos, 2009, p.65.
3 WISNIK, Guilherme. Dentro do nevoeiro: arquitetura, arte e tecnologia contemporâneas. São Paulo: Ubu editora, 2018, p. 301.
4 PALLASMA, Juhani. A Imagem corporificada: imaginação e imaginário na arquitetura. Porto Alegre: Bookman, 2013.